Raridade – CSC abriga painéis com pinturas de João Carriço

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O Colégio Santa Catarina (CSC), com sua imponência arquitetônica, é considerado um dos mais belos e conservados prédios da cidade tombados pelo patrimônio público. Mas entre tantos detalhes e uma rica história, o colégio também coleciona relíquias. Uma dessas raridades são os painéis do Salão Nobre, assinados por João Carriço. O juizforano ganhou fama por seu pioneirismo no cinema brasileiro, mas o que pouca gente sabe é que também se aventurou com tintas e pincéis.

Datados de 1923, os painéis pintados por João Carriço, ornamentam o palco do Salão Nobre, localizado no prédio principal do CSC, construído no início do século passado, em estilo eclético. A descoberta da autoria dos painéis se deu em 2011, durante restauração do Salão, e surpreendeu o restaurador responsável. “Eu desconhecia o fato. Só fiquei sabendo quando comecei a mexer nos painéis, que são pintados em frente e verso. O verso estava em decomposição e tinha um tecido cobrindo a pintura. Tudo estava bastante comprometido. Quando fui retirar os tecidos é que descobri que se tratavam de obras do Carriço, o que foi uma surpresa e também aumentou minha responsabilidade”, revela Henrique Lott

O restaurador acredita que, possivelmente, João Carriço fez os painéis para usá-los como pano de fundo de algum cenário. Ao todo, são oito painéis, dispostos quatro de cada lado do palco. Eles são pintados de ambos os lados, o que possibilita usá-los como dois cenários diferentes. A restauração de toda essa relíquia levou três meses e deu bastante trabalho. “Nós tivemos que levar os painéis para o meu ateliê para que eu conseguisse trabalhar com mais cuidado. Tive que tirar os painéis da estrutura de madeira em que se encontravam, higienizá-los e depois fixar em outro tecido, uma espécie de lona de algodão. Por fim, os fixei em outra estrutura, feita de uma madeira tratada para não dar bicho”, conta Henrique, explicando o processo de restauração. Segundo ele, João Carriço pintou os painéis a têmpera, uma técnica de pintura em que se mistura o pigmento com um aglutinante, um tipo de cola orgânica.

 

Grande admirador da arquitetura do CSC, Antônio Carlos Duarte também se surpreendeu ao saber das pinturas de João Carriço. “Nas visitas que eu fiz aqui anteriormente, eu tinha observado no salão nobre a assinatura do Sílvio Aragão, e pelo que se percebe são pinturas do início da atividade dele, que foi um dos pintores mais importantes de Juiz de Fora. João Carriço é conhecido especialmente por seus filmes, porque ele tem uma bagagem enorme de documentários sobre a cidade. Eu sabia que ele fez alguma coisa de pintura, mas nunca tinha visto nenhum trabalho dele nesse sentido. Eu até me emociono ao ver a assinatura dele aqui nos bastidores do colégio”, afirma o arquiteto. “Agregou valor ao salão, que por si só já é belo. Eu desconheço, aqui em Juiz de Fora, outro espaço que tenha pintura do Carriço. Não estou afirmando que não haja, mas é o primeiro contato que estou tendo. Isso é uma raridade, uma riqueza que se soma a essa grande coleção de beleza, de valores arquitetônicos e culturais que o Colégio Santa Catarina detém”, complementou.

O Salão Nobre do CSC é extremamente rico em detalhes. Piso em madeira, pilastras rebuscadas além das pinturas no teto e nas paredes, conferem ao espaço um ar de imponência que atrai até mesmo os olhares mais distraídos. “O único salão nobre comparável ao do Santa Catarina, em Juiz de Fora, é o da Associação Comercial, feito por Ângelo Bigi, na década de 1920, se não me engano. O Sílvio Aragão foi auxiliar do Ângelo Bigi. Quando eu vi a assinatura do Sílvio Aragão, logo percebi uma originalidade toda especial. É um dos espaços mais significativos da cidade, do ponto de vista de decoração artística”, afirma Lott.

 

Um pouco sobre a história do CSC

O Santa Catarina de Juiz de Fora foi fundado em 1909. O colégio, que surgiu como uma casa de dois andares e uma capela, rapidamente cresceu em estrutura e em número de alunos. Já em 1922 foi construído um segundo prédio com sua tradicional fachada de tijolinhos coloridos. Oito anos depois, foi erguido mais um prédio, de quatro andares, com um salão nobre, amplos dormitórios para as alunas internas (onde hoje funciona a nossa biblioteca) e outras dependências. A atual capela, em Art Déco, foi inaugurada em 1941. Com o crescente número de alunos, foi preciso ampliar novamente o espaço físico. Em 1962, foi inaugurado um novo prédio, com 20 salas de aula. O colégio ganhou, ainda, um grande ginásio esportivo, inaugurado em agosto de 1997. O CSC atua desde a Educação Infantil até a 3ª série do Ensino Médio. Hoje, o colégio tem, ao todo, 2.264 alunos.

O Colégio Santa Catarina foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Juiz de Fora em 1987. O conjunto arquitetônico inclui as diversas unidades, fachadas, salão nobre, uma escadaria interna em mármore e a capela. “Tombar historicamente é declarar que uma obra fala tão alto, que já não é mais possível calar sua voz. As obras falam. Os homens passam, mas suas obras continuam falando. E este colégio está a falar (…). Testemunha grandes ideias. Se o monumento é grande, bem maiores são os que o geraram”, disse Irmã Maria Cecília Petry, na solenidade de tombamento do colégio.

Para o arquiteto Antônio Carlos, o colégio, como um todo, é um tesouro, considerando que manifesta a cultura de diversas épocas e a arquitetura de acordo com a contemporaneidade. “Todo o Colégio Santa Catarina me impressiona pela coerência, inclusive, de filosofia. Ou seja, cada momento arquitetônico do colégio condiz com o momento cultural que a sociedade vive. O prédio mais antigo, por exemplo, do início da década de 1900, condiz com a sociedade da época. A capela é em estilo Art Déco, uma cultura de arrojo, coerente com o final da década de 1930. Depois temos o prédio com arquitetura mais modernista, coerente também com a cultura daquele momento. E tudo isso junto, inclusive, com um sentido pedagógico e cultural, mostrando a sintonia das irmãs, da Congregação, com o momento cultural presente. Isso é muito interessante”, avalia o especialista, salientando também a preservação de todo o conjunto arquitetônico.

João Carriço

Mineiro de Juiz de Fora, foi um dos pioneiros do cinema brasileiro. Em 1927, inaugurou na cidade o Cine Teatro Popular, com 500 lugares. Seu objetivo era promover diversão a preços populares. Em 1934, fundou a Carriço Film, passando a produzir cinejornais e documentários sobre a vida social e política da cidade. Retratou as visitas do presidente Getúlio Vargas a Juiz de Fora, comícios políticos, festas populares e religiosas, eventos esportivos, além das primeiras experiências de transmissão de televisão em Juiz de Fora. A Carriço Film encerrou suas atividades em 1959, ano da morte de João Carriço. Seu acervo encontra-se na Cinemateca Brasileira em São Paulo.

 

 

2014.02.25



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