Professor faz votação para que alunos do 9º ano escolham livro paradidático

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No Colégio Santa Catarina de Juiz de Fora (MG) é comum trabalhar um livro paradidático por etapa ou por semestre com os alunos. Além de despertar nos estudantes o prazer da leitura, pretende-se fazer com que eles reconheçam nessa prática algo capaz de instruir e divertir. Geralmente, é o professor de Língua Portuguesa ou Literatura, junto com a equipe pedagógica, quem escolhe a obra a ser adotada. Mas nesta última etapa de 2017, o professor Fernando Martins, que leciona português para as turmas de 9º ano, resolveu fazer diferente: ele propôs dez títulos e os alunos escolheram, por votação democrática, qual livro gostariam de ler.

“Através do hábito da leitura literária, nos apropriamos de bens culturais por meio da linguagem e nos transformamos em leitores críticos. A partir daí, temos condições de transferir essa criticidade para a vida cotidiana, assegurando nosso direito à cidadania e a nossa completa inserção social. São estes princípios que são levados em conta na hora de escolher o livro com o qual trabalharemos. A ideia de propor a votação nasceu de uma conversa que tive com os alunos do 9º ano sobre como é feita a escolha do paradidático. Nesse diálogo, os alunos argumentaram que sentiam falta de uma leitura mais próxima do cotidiano deles e que, algumas vezes, a opção recaía em livros que continham histórias distantes do repertório cultural dos jovens”, explica Fernando.

“Procurei fazer uma lista variada, títulos de autores nacionais e internacionais, gêneros diversos – aventura, narrativa distópica, suspense, mistério, biografia, histórias em quadrinho. Coloquei a sinopse de cada um deles, juntamente com a capa do livro, no site Construtores do Saber e pedi aos alunos que procurassem, antes da votação, saber mais sobre as obras para que fizessem uma escolha consciente”, explica Fernando.

Os livros que participaram da disputa foram: “Melodia Mortal”, de Pedro Bandeira; “Senhor das Moscas”, clássico do inglês William Golding; “Caninos Brancos’, de Jack London; os clássicos “Dom Casmurro” e “O Alienista’, de Machado de Assis (ambos na versão HQs); “O Fazedor de Velhos”, de Rodrigo Lacerda; “A linha Negra”, de Mário Teixeira, romance histórico vencedor do Prêmio Glória Pondé (2015), concedido pela Fundação Biblioteca Nacional; “Eu sou Malala”, de Malala Yousafzai; “Persépolis”, de Marjane Satrapi, autobiografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi; e “Laços de Família”, de Clarice Lispector.

A votação foi realizada no fim do mês passado e o vencedor foi “Melodia Mortal”, do escritor Pedro Bandeira. “Escrito a quatro mãos por Pedro Bandeira e o médico Guido Levi, o livro examina, à luz dos conhecimentos da medicina contemporânea, os indícios possíveis sobre as mortes polêmicas de alguns grandes compositores da música clássica. E quem conduz a investigação é Sherlock Holmes, auxiliado pelo seu fiel escudeiro, o doutor John H. Watson, que narra as aventuras do detetive na empreitada. É um romance divertido, cheio de teorias científicas e enigmas que formam um intricado quebra-cabeça, na tradição da melhor literatura policial”, avalia Fernando.

Além da oportunidade de ouvir os alunos e respeitar a preferência deles, a iniciativa de Fernando tem também um viés cidadão. “No início do ano, os alunos ouviram aqui na escola a palestra de um Juiz Eleitoral sobre a importância do voto para a constituição do indivíduo como cidadão. Ao permitir que as turmas escolhessem o livro que leriam, chamei a atenção para a responsabilidade dessa escolha e para a aceitação do resultado da maioria. Como o espaço escolar é um microcosmo da sociedade, os alunos se comportam como os eleitores quando escolhem seus representantes: alguns deixaram para fazer sua escolha no dia da votação, sem antes pesquisar sobre os livros, outros não se interessaram pelo processo de votação, alguns deles votaram de acordo com a opinião dos colegas. É o que ocorre na sociedade”, ressalta o professor.

A aluna Letícia Emídio Altomar achou a iniciativa diferente e inovadora porque “os livros sempre já vêm definidos e agora a gente teve a oportunidade de escolher entre muitos livros legais. Eu tive o cuidado de ler a sinopse de todos eles para fazer uma escolha consciente e acabou que o livro que eu mais gostei ganhou. Vou fazer uma leitura muito agradável. É bacana essa preocupação do Colégio de nos mostrar a importância de saber escolher, seja na eleição dos representantes de turma ou com esse livro do Fernando, é algo que a gente tem que levar para a vida: saber eleger e respeitar a opinião de todos”. O aluno Orlando Silveira Casarin destacou que o professor Fernando proporcionou aos alunos a oportunidade de serem ouvidos para que não fiquem “só na opinião do professor, o que gerava algumas reclamações, porque nem sempre o que o professor gosta é o que a gente gosta”, revela. “Agora, não, pudemos escolher o gênero que gostamos, os nossos gostos prevaleceram. Olhei a resenha dos livros para fazer uma escolha consciente. Não adianta ver pelos nomes sem ter a história do livro em mente. É preciso conhecer”, afirmou o aluno.

2017.10.16



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