Perfil: Dr. Márcio Veiga (Diretor Técnico do HST) – paixão pela escrita

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Especialista em cirurgia geral, cirurgia pediátrica e médico do trabalho, Dr. Márcio Veiga atua no Hospital Santa Teresa (RJ) como médico cirurgião desde 1978. Em 1988, a convite da Irmã Maria das Graças, então diretora do Hospital, assumiu o cargo de médico do trabalho e, em seguida, o posto de Diretor Técnico, nos quais atua até os dias de hoje.

À frente da direção técnica há 20 anos, o profissional acredita que o grande desafio seja organizar o corpo clínico, criar parcerias e desenvolver no grupo a sensação de pertencimento. O cuidado com os relacionamentos é constante. “Costumo cuidar daqueles a quem chamo, carinhosamente, de ‘meus filhos’: posso puxar a orelha, mas protejo com todo carinho e amor”, diz Veiga.

Amante de futebol, atuou até os 18 anos como meio campista do Serrano do Petropolitano e da Seleção de Petrópolis. No entanto, o Diretor Técnico do HST é também reconhecido por sua veia literária: o cronista Márcio Veiga. Dono de um olhar minimalista e interessado pelas vivências e essências do ser humano, Dr. Márcio escreve “desde sempre”, já tendo, inclusive, publicado diversos textos em jornais e revistas do município de Petrópolis (RJ).

Referenciando o escritor e filósofo francês Jean Paul Sartre, escrever, para o médico, é conviver com o absurdo. “É um jogo de amarelinha, compreende? Nós vamos saltando de casa em casa para chegar ao céu! O céu é a essência de cada um, o ideal. Nós buscamos, durante a vida, a chave que vai aproximar nossa existência (aquilo que nos limita) da nossa essência (aquilo que nós trazemos de melhor)”, comenta Dr. Márcio, que também já escreveu sobre culinária – outra grande paixão.

Leia dois textos de autoria do Dr. Márcio Veiga:

A Enchente

Depois das lições aprendidas com o anjo manobrista, já no 452, descobri que jamais esquecemos o número do quarto em que estamos internados. Começa a preparação pré-cirúrgica.

Como o primeiro cuidado está relacionado a higiene, sou convidado a “tomar um banho”. Gentilmente, a técnica explica que, embora tenha certeza que, quando eu saí de casa eu já havia tomado banho, se faz necessário uma melhor higienização, que entre os protocolos do hospital tenho que utilizar um sabão especial e lavar o corpo do pescoço até os pés, poupando rosto e cabeça.

Lá vou eu, sorrindo para debaixo do chuveiro, água morna abundante escorrendo, corpo ensaboado, relaxamento e distração.

Batidas na porta, minha mulher apavorada informa que o quarto está inundado, enchente, uma emergência digna de ação da defesa civil.

Absorto naquele ambiente, feliz com a presença protetora dos anjos da guarda, havia esquecido de abrir o ralo de escoamento de água, transbordamento, inundação. Como diria meu neto: que mico!

Envergonhados, pedimos auxílio. Socorro! O velhinho fez bagunça!

Passado pouco tempo, para mim uma eternidade, aboletado na cama, minha acompanhante, recolhida e encolhida com os pés sobre o sofá cama, sobreviventes de um naufrágio, eis que surge, sorridente, uma moça vestida de fada, portando instrumentos salvadores: rodo e pano de chão.

Abriu um largo sorriso e aquietou meu coração taquicardíaco e foi logo dizendo uma aguazinha à toa não é motivo de preocupação. Já vi caso de água chegando até o corredor, são coisas que acontecem. Olha, importante o senhor ficar bom, já, já, tudo estará sequinho, muitos esquecem de abrir o ralo.

Mais uma lição de paciência de amor ao trabalho de cuidar, imagem benfazeja de um outro anjo que aparece em seu caminho.

Confirmação de que todo ser humano é valioso, que ninguém deve pedir perdão por existir, ninguém é insignificante, que faculdade nenhuma ensina as destrezas e as habilidades que são imprescindíveis para a vida.

 

Uma bela experiência

 

Nenhum ser humano pode ver e entender em outro o que ele mesmo não viveu.

Empatia é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

Quem não viveu a morte de um pai ou de uma mãe dificilmente pode imaginar a dor e o vazio que essa experiência causa.

Podemos exigir das pessoas total compreensão de pessoas que têm vidas e experiência muito diferentes das nossas

Muitas vezes, estar ao lado daquele que está sofrendo é o suficiente. Não basta ser bom, é preciso querer ser bom. Eras forasteiro e me hospedastes.

Estar ao lado daquele que está sofrendo é o suficiente.

 

Quando cheguei ao hospital, para ser internado, trazia comigo incerteza, ansiedade, impaciência, falta de humor e medo; uma sensação de aperto no peito, sufocamento!

Antes de sair de casa, beijar filhos e neto, olhei ao redor e senti vontade de desistir, voltar para minha caminha, posição fetal, útero materno.

Coragem homem! Entrei no carro, e lá fui eu! No trajeto vinha pensando, ora! O hospital Santa Teresa é uma referência, prima pela qualidade, instalações de primeiro mundo; a cirurgia não é complicada, equipe experiente… mas, a velocidade que imprimia no carro era de tamanha lentidão que o chegar não chegaria nunca. Cagaço! Eu, velho calejado com as rotinas hospitalares, com esta paúra assustadora; agora, imagina uma pessoa não familiarizada com o dia a dia de um hospital, as sensações descritas devem ser triplicadas.

Todos os pacientes devaneiam, fantasiam, imaginam coisas, carregam o peso de inúmeras incertezas, transformam-se em humildes cidadãos, convertem-se, adotam crenças religiosas e aceitam resignados todas as ações das “forças superiores” que, empoderadas, podem controlar e decidir sobre o seu destino.

Estacionei, e alguém coloriu o meu cenário; quem? Como?

Parei o carro e fui cumprimentado pelo manobrista, funcionário de empresa terceirizada e sempre o primeiro contato de quem chega ao hospital; bom dia! Vai ser operado? Aqui é o melhor lugar!; quer lavar o carro?

Fez-se a luz, dialogo rápido e suficiente para que eu renovasse esperanças, acreditar que logo, logo, estaria de volta, saindo do hospital, voltando para casa, carro e eu novinhos em folha.

Aprendizado, conhecimento, lição de vida.

Subi as escadas confiante, convicto que não basta ser gentil. É preciso querer ser gentil, que basta estar ao lado de quem está sofrendo para fazê-lo sorrir.

 

 

 

2017.03.20



4 Comentários

1.014 Visualizações

  1. Elaine Moura disse:

    Conviver profissionalmente com Dr. Márcio Veiga é um privilégio. Sabedoria e bom senso em essência. Parabéns!

  2. Maria Claudia disse:

    Tenho muito orgulho em ser sua afilhada! Saudade

  3. Marcia disse:

    Uma das melhores pessoas que já conheci! Além de um cirurgião maravilhoso!!!

  4. Élia da silva disse:

    Dr. Márcio Veiga você me veio à cabeça, agora nossa até suspirei, profundamente você é muito bem lembrado, faz de mas Parte da minha vida e do meu filho Felipe que hoje está com 31, anos e aos 2 anos para 3 você operou Ele deu o nome ao problema do qual ele apresentava, que eu nunca mais me esqueci hipospádia que era desvio de uretra hoje Se passaram 28, anos E ele precisou de fazer um exame admicional , e quem o atendeu foi você eu hoje só tenho orgulho do pediatra que salvou o meu filho! Que hoje se tornou um grande homem. E criou a lei das mães poderem, acompanhar, os filhos nos leitos. Eu só tenho a agradecer muito obrigado e tirar o chapéu para você…. um grande abraço.

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