Páscoa, apenas feriadão?

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Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina

Não podemos mais supor que nossa cultura seja religiosa. Nos inícios da Igreja, a cultura era pagã. Hoje temos uma mistura de cristianismo e de paganismo. Lá, os cristãos eram perseguidos e mortos pela espada, hoje são perseguidos e enfraquecidos pela cultura do bem-estar, do individualismo, do prazer segundo o gosto do consumidor.

A realidade secularizada não consegue, porém, vencer a fome de espiritualidade. Enquanto muitos decidem não mais pertencer à Igreja, nem ser chamados de cristãos, outros se agarram à fé. Os que são vítimas do consumismo vivem sob a “tirania do trabalho e do stress”, fazem da Páscoa um feriadão, com compra de ovos de chocolate e de bacalhau. Outros vivem profundamente o mistério pascal.

Hoje vivemos certa “balbúrdia religiosa” feita de fundamentalismo, tradicionalismo, conservadorismo. Por outro lado, o profetismo, a libertação, os valores do reino, a experiência eclesial, a compaixão e a gratidão são expressões da dimensão social da fé. Para estes cristãos conscientes e discípulos do Senhor, a Páscoa é um acontecimento inaudito, uma surpreendente e alegre noticia porque é o centro, o coração, o âmago do cristianismo.

O que é a Páscoa? É a grande prova do amor extremado de Deus pelo mundo. É a resposta de Deus ao nosso pecado. É a festa da misericórdia que põe fim ao mal, ao mau uso da liberdade e da morte! Sem a páscoa o cristianismo seria apenas fracasso, falência, mentira, ilusão, engano. A Páscoa é a festa da verdade e do fundamento do cristianismo. O Pai, na ressurreição do seu filho, confirma a pessoa, a ação, a doutrina de Jesus. A Páscoa é a confirmação do Evangelho, assim podemos colocar nele toda nossa confiança e esperança.

A morte e ressurreição de Jesus são remédios do amor de Deus, que curam a ferida de pecado original que é o pecado. A fé na ressurreição é uma grande motivação das nossas lutas pela dignidade, saúde e salvação da pessoa humana. Vencida a morte, nós somos tomados de coragem, ousadia e audácia, para vencer os outros males.

A Páscoa gera em nós sentimentos de gratidão, gratuidade e alteridade. A religião não é apenas obrigação, mas, admiração, atração, comoção e encantamento por Deus. A cordialidade e a amabilidade são frutos da Páscoa enquanto festa da alegria e da esperança. Tudo tem sentido e valor. Somos conquistados por Cristo Jesus. Há uma reviravolta em tudo, graças à Páscoa. Tudo tem sabor de vida, de esperança e de futuro. A ressurreição nos leva à convicção de nossa grandeza. Não podemos mais duvidar, pois somos realmente e definitivamente amados e salvos. Corações ao alto. Exultemos de alegria. O Deus suspenso na cruz agora vive. Faz tudo isso por nós e para nós.

Como é diferente a Páscoa feriadão, da Páscoa cristã. Ser testemunha da ressurreição é lutar pela vida, levar a alegria aos outros, saber consolar, apontar soluções, olhar para frente, recomeçar sempre, não se cansar de fazer o bem. Que a celebração deste ministério nos leve à missão: “Do mistério ao ministério”.

Tirou-nos do túmulo, do abismo, do lixo, da lama e do pó. Ele é o Senhor da Vida e da história que cura os doentes, consola os tristes, sana a memória com o perdão, acolhe os estranhos, perdoa pecadores, salva do mal. Jesus é a maior fascinação da humanidade. Ao ensinar-nos o Pai Nosso convidou-nos a sete relacionamentos saudáveis, ou melhor, relacionamentos pascais: relação de filiação com o Pai, relação de fraternidade com os irmãos, relação de serviço com os irmãos, relação de partilha na sociedade, relação de perdão na convivencia, relação de prudência para vencermos as tentações e relação de liberdade: livres do mal.

2014.04.17



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