Bom no estudo, bom em tudo

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Um projeto desenvolvido desde 2007 pela equipe pedagógica do Colégio Santa Catarina (CSC – JF) com alunos do Ensino Fundamental I tem ajudado muitas crianças a melhorar o desempenho escolar, a capacidade de interpretação e o nível de argumentação. O “Bom no estudo, bom em tudo”, como é chamado, é um projeto permanente do colégio com o objetivo de ajudar nossos meninos e meninas a construir hábitos saudáveis, inclusive o hábito de estudo. Quando foi implantado, era voltado apenas para o 5º ano, visando à transição de segmento e de turno de aula. Porém, este ano, o trabalho foi ampliado para todas as séries do Ensino Fundamental I.

E mudou também a forma de aplicação do projeto. “Com o tempo, a gente vai amadurecendo as ideias e aperfeiçoando o trabalho. Este ano conseguimos implementar em todas as séries, do primeiro ao quinto ano, com uma metodologia que a gente considera que nos aproximou mais das crianças, porque a gente entra para falar do hábito de estudo através de histórias e de símbolos que eles já conhecem. As histórias variam de acordo com a idade”, conta a psicóloga Anna Paula Gomes da Silva, uma das responsáveis pelo projeto.

A ideia, segundo Anna, é fazer com que as crianças fiquem motivadas, através da própria história contada, e passem a criar expectativas em cima da narrativa, ou seja, que elas sejam capazes de relatar sobre os personagens, dizer com quem se identificaram e, ao final dessa interpretação oral, consigam estabelecer uma relação com o hábito de estudo. “A relação é muito legal, muito interessante. Tem criança que, por conta da história, faz essa associação muito rápido, justamente porque consegue vivenciar a história”, afirma.

Com os alunos do 1º ano, por exemplo, as educadoras contaram a história do ‘Coelhinho e do grão de milho’. “Levamos um cesto com espigas de milho para dentro da sala de aula para explicar que quando a gente cuida de uma sementinha, ela pode se multiplicar e se transformar em várias outras. Só que tinha criança que não conhecia a espiga de milho. Então, eles perguntaram se era de verdade, cheiraram, e fizeram diversas associações. Teve uma criança que chegou a dizer que a semente germinava no escuro, porque ela entende que quando a gente cava e coloca a semente na terra ela fica um tempo no escuro. Foi uma experiência quase que sensorial. E depois fizemos a associação: o estudo é como uma sementinha que a gente tem de cuidar para nos render furtos”, explica Alda Lúcia Moura Guimarães, orientadora educacional e também responsável pelo projeto.

Já no 2º ano, como as crianças já têm um nível maior de independência e já têm noção do que é construir um hábito, as educadoras buscam associar o estudo à construção de hábitos saudáveis, ou seja, assimilar que cuidar do estudo é a mesma coisa que cuidar do corpo. “Instigamos os alunos a pensarem como se cuida do corpo? A gente toma banho, a gente se alimenta, a gente dorme. Então, vamos fazer essa associação com o estudo. Como cuidar do estudo? Cuidando do material escolar, cuidando de como a gente escreve, cuidando de como a gente faz as relações na escola, tendo um lugarzinho fixo para o estudo. A intenção é conscientizá-los e criar uma rotina”, orienta Anna Paula.

Ao longo do ano, a equipe tem quatro encontros com cada turma, um por bimestre. E as professoras também têm participação fundamental no processo. Alda conta que passa com antecedência para as professoras todos os temas que vai trabalhar em cada turma dentro do projeto. “Elas recebem o material e nos ajudam a conduzir a reunião na sala de aula. No final de cada encontro, a professora estabelece duas metas que a turma precisa melhorar naquele bimestre. E as crianças se comprometem a cumprir”, afirma. Alda e Anna Paula garantem que o hábito de estudo, além de ajudar a assimilar melhor o conteúdo, ajuda na construção de valores, como responsabilidade e autonomia, pois trabalha não só a parte de conhecimento, propriamente dita, mas também a formação humana.

“Toda vez que a gente entra em sala, leva em conta o que foi acordado no primeiro encontro, porque tem uma proposta. O que você, em termos de hábito de estudo, precisa melhorar? E a professora é quem avalia, ao longo do tempo, a postura dessas crianças, se elas amadureceram. Algumas desculpas para não fazer o dever, por exemplo, agora já não tem mais validade, não cola mais. Então, eles estão conscientes de que precisam ter responsabilidade. E eles ficam motivados, porque sabem que vai haver uma troca, há uma simbiose. Aqueles que conseguem manter esse combinado ficam orgulhosos em dizer que estão dando conta, que estão se preparando para uma nova realidade. É, também, uma forma de valorizá-los”, enfatiza a orientadora.

E os resultados são rapidamente percebidos. “Tem crianças e tem turmas que levam a sério o que é proposto. Há uma diminuição do número de reclamações naquela turma, as crianças têm maior compromisso, elas se veem mais responsáveis pelos resultados delas. A gente teve muita queixa, no início do ano, de crianças que já na primeira semana estavam deixando de fazer o dever, em todas as turmas isso aconteceu. E com todas as turmas trabalhamos essa questão da criança se responsabilizar pelo próprio dever, pelo material, de não esquecer o material porque isso também faz parte do estudo. Então, propusemos, como se fosse numa gincana, que se esse tipo de reclamação da professora diminuir, aquela turma vai receber um prêmio, que pode ser assistir a um filme na sala de multimídia, um elogio da equipe pedagógica em pública. Mas colocamos algo concreto para ser cumprido até o nosso próximo retorno, que é no mês seguinte”, disse Anna Paula.

Segundo as educadoras, dentro do projeto do hábito de estudo, trabalha-se muito a questão da responsabilidade atrelada à capacidade de se fazer escolhas e suas consequências. Ou seja, mostrar ao aluno que, se ele escolher fazer o dever e estudar, a consequência disso vai ser ele obter boas notas, ser um bom aluno. Mas, ao contrário, se abrir mão disso, depois ele não pode reclamar de não ser um bom aluno e tirar nota baixa. Para que tudo isso seja efetivamente alcançado, Alda e Anna chamam atenção para a participação da família.

“A participação da escola está entrelaçada com o apoio da família. Não tem como a criança ter um bom desempenho se não tiver um comprometimento da família com a criança. É preciso que os pais entendam que mesmo a escola tendo bons profissionais, as crianças também precisam se empenhar e se dedicar. Por isso, a gente sempre pede que as crianças cheguem em casa e contem a história trabalhada aos pais e que anotem na agenda a data do nosso próximo encontro para que os pais saibam do trabalho que está sendo realizado”, explica a psicóloga. “Durante esse trabalho, quando se percebe que uma criança destoa, a gente passa a ter um olhar diferenciado, com um atendimento individual fazendo uma acolhida tanto com as crianças quanto com a família”, complementa Alda.

As crianças aprendem que é gratificante passar de uma série para a outra, mas que essa conquista está vinculada a uma responsabilidade ainda maior. Ao longo do projeto, os estudantes conseguem se dar conta de que não é só passar de ano, mas, embutido a isso, está também a busca pela autonomia, o aumento da responsabilidade, iniciativa para fazer as coisas, saber se comportar em sala de aula, fazer-se entendido e ouvido. Em suma, é uma questão de atitude. “E aí, a gente faz outra associação: passa de ano quem cresce. Quem aceita crescer de forma humana, na convivência, na forma de ouvir a professora, na forma de lidar com os colegas. É esse tipo de crescimento que buscamos incentivar”, destaca Anna.

Ao mesmo tempo, as educadoras ressalvam que há o cuidado ao lidar com aquelas crianças que estão repetindo a série por uma questão de maturidade. Crianças muito esforçadas, mas que precisaram de mais tempo, de maturidade para gerenciar o conhecimento.

“Aqui no colégio só temos repetência nessa faixa etária quando realmente a criança carece de mais tempo. Temos falado muito isso com os pais. É igual fruto. Uns amadurecem no verão, porque precisam de muita água, outros amadurecem no inverno, porque não precisam de quase nada, têm mais autonomia. Ou seja, tem criança que precisa de muita supervisão e tem criança que dá conta sozinha. Então, que tipo de filho você tem? Como você pode ajudá-lo a ser mais autônomo? A gente tem falado muito isso aos pais, até mesmo para desmistificar essa questão de que repetir é um retrocesso. Não, muitas das vezes há uma necessidade, o tempo de uma criança é diferente do de outra. A ideia é que os pais comecem a entender isso e tenham um olhar diferenciado, porque muitos ainda se sentem incomodados ao verem o filho refazendo uma série. Mas não é questão de refazer, é porque a criança precisa desse tempo. Do primeiro ao quinto ano, eles estão fazendo a base, para depois edificar. Então, esse alicerce não pode ter fissuras, não pode ter lacunas. Ele precisa ter um terreno bem preparado para edificar. E se tiver que refazer, que seja agora”, afirma incisivamente Alda

2014.05.28



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